quarta-feira, 6 de junho de 2007

Capítulo XXII

César teve um inesperado assomo de coragem. Ficou ali, de pé. Sentira alguém a entrar no apartamento e decidira não se esconder. Não tinha cometido nenhum crime, portanto, não tinha que ter medo. Fosse quem fosse, não lhe importava, aliás, nada lhe importaria. Neste momento da sua vida não poderia cair mais fundo. Socorreu-se das lembranças de Clara, do beijo....Um vulto estava, agora, dentro do apartamento.

Pedro decidira ir ao apartamento de Clara, para lá de alguns objectos que queria levar para si, queria investigar por si próprio o misterioso assassínio. Já dentro do apartamento, tomou um grande susto. Nunca imaginou que alguém lá estivesse. Mais surpreso ficou quando viu que era César e este o cumprimentou: "Viva, também por cá?!" Só uma ideia lhe passou pela cabeça: "o assassino!" Vermelho de fúria avançou para ele e com apenas um soco o tombou e, com ele no chão, o esmurrou sucessivamente até sentir que não reagia. Nem esboçou defesa; tinha sangue por toda a cara, proveniente do nariz e dos lábios rompidos. Apenas gritou: "odeio-te, Pedro!!"

"O criminoso volta sempre ao local do crime!", disse Pedro com a voz alterada. Procurou o telemóvel no bolso e preparava-se para ligar para a polícia... Prostado no chão, César lançou umas palavras: "Pedro, não sou eu o assassino..." De repente, ao passar os olhos pelo chão, viu uns papéis e fotografias... Meteu de novo o telemóvel ao bolso. Se anteriormente estava furioso, agora estava possesso! Clara aparecia em fotos com o seu irmão gémeo, Diogo, e com uma criança... Leu as cartas, ficou durante dezenas de minutos a ver as fotos, a reler as cartas... "O meu irmão, grande cabrão!" Esquecera-se do César: "Eh pá, o gajo ainda me vai morrer aqui!". Levantou-o do chão. Este sempre estivera acordado, porém, imóvel. Levou-o para a casa de banho e, com a água do lavatório a correr, lavou-lhe a cara. O nariz deixara de sangrar e as únicas marcas da agressão eram o nariz esfolado e cantos dos lábios rasgados.

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O bloco de notas era agora o seu companheiro inseparável. As coisas para lá do normal que conseguia ver assustavam-na. Assustavam-na mas, esse medo, tornava-se positivo. O medo mantinha-a alerta e preparada para o perigo. A capacidade de através de objectos ver factos passados era-lhe inata, embora, não tivesse consciência disso até ao momento em que foi convidada a colaborar com a polícia. Marta tinha um dom.

Marta ia ao encontro de Pedro. Ele fizera-lhe um telefonema estranho, num tom monocórdico que a deixou receosa. Mais ainda, quando este lhe disse que era urgente e que não dissesse a ninguém. Não sabia o que poderia reservar-lhe Pedro mas, mais por incapacidade de dizer não do que por curiosidade, ia ter com ele. Ia ter ao apartamento onde Clara morrera. Já lá estivera com o inspector Francisco Mesquita, isto numa altura em que ainda não tinha verdadeiramente optimizado a sua percepção extra-sensorial. Estava ansiosa. A proximidade fazia com sentisse que algo estava prestes a ser descoberto... Não imaginava o que ele queria.

Pedro estava sozinho no apartamento. César estava magoado por fora e esmurrado por dentro; descera à rua, fora tomar água a um café para limpar o sangue que ainda sentia empastado na garganta. Pedro estava desolado. Sentia-se humilhado. Agora compreendia as reacções de Clara. Compreendia as fugas. Compreendia as mudanças de assunto. Traído pelo irmão! Decidira, entretanto, talvez por pudor ou para ganhar tempo, não mostrar as fotos à polícia. Tinha-as consigo. As cartas também. Metera-as na barriga, por baixo da camisola. Ia desabafar com Marta, depois decidiria o que fazer.

Marta chegara à porta do apartamento que se encontrava semi-aberta. "Posso, Pedro?" Pedro correu ansioso para ela, "Marta, ainda bem que vieste!" Ela já não conseguia ouvir as palavras dele, algo forte fazia com que se concentrasse nas paredes do andar... nos móveis... nos objectos... " Pedro, vou pedir-te, deixa-me por momentos sozinha aqui." Pedro estava atónito, "mas o que se passa, Marta?" "Pedro, deixa-me por momentos, por favor!" Convencido, ele recuou para o vão de escada, "vou ao café ter com um melro..." "Com um melro?", perguntou ela. "Uma longa história, venho já."

Marta sentia medo. Abstraiu-se dos factores de distração. Tirou o seu bloco de notas do bolso. Avançou para o centro do apartamento, entrou na primeira porta entreaberta. Estava na casa de banho. Sentia cada vez mais medo. E, defronte da banheira, sentou-se no chão frio. Levantou-se e pousou o seu corpo, suavemente, no fundo da banheira. Estava concentrada. Estava a sentir algo... Clara na banheira. Um homem. Viu-lhe a cara mas não tem certeza de quem viu!! Sai a correr e cai sem forças na sala, não consegue mover-se...

21 comentários:

Leonor Martins disse...

Pedro Abrunhosa marca presença nos capítulos redigidos por Astuto.

Ao ler este capítulo senti necessidade de voltar a relar o conto, e assim fiz.

Neste capitulo atribui-se o apartamento como sendo da Clara...no entanto no capitulo XI encontramos o seguinte: "Quando deu por ela já estava na casa de Pedro. ... Apenas numa observação mais cuidada se perceberia que havia ali um casal. ... Todos de toucas e batas brancas, nada do ambiente de glamour e fatos Dolce&Gabana que se vê nos CSI."

Aprecio o estilo, pois está bem escrito, é descritivo q.b. e expressivo nas emoções, no entanto as perguntas levantadas no anterior capitulo continuaram praticamente sem resposta (excepto a identificação de quem entrara no apartamento).


A todos os contadores:
...que é feito dos restantes personagens? é que a história estás demasiado nuclear...quase que parece que existe um assassinio obvio que não querem para já revelar...

Eduardo Ramos disse...

Por acaso, Sra. Dona Sempre Atenta Leonor Martins, reparei nisso, mas não avisei Astuto porque... a minha casa deixa de ser minha quando dizem que é da minha esposa. :o)
Não é no sentido de posse , mas de referencia.

Touro Zentado disse...

Eu gostei do cap. do Astuto e da forma como foi escrito.
Gostei particularmente desta frase: César estava magoado por fora e esmurrado por dentro. Ficou bem!
É verdade que o cap. só responde a uma das questões anteriores mas as restantes virão com o passar dos capítulos. Seguramente.
Agora... O cap. levanta novas questões!
César regressará ao apartamento e vai conhecer Marta? Ou foge?
Quando Marta olhar as fotos quem vai ela ver? Pedro ou Diogo?
Poderá Marta achar que Pedro tem algo que ver com a morte da Clara? Ela desconhece a existência de Diogo...

Eduardo Ramos disse...

O Mesquita vai ficar "radiante" quando vir sangue no chão num lugar onde ainda se está a fazer investigações! :o)
Vai das pulos de contente... e morder alguém, de certeza!

astuto disse...

Leonor, no capítulo faz-se referência ao apartamento como sendo de Clara, não no sentido de posse (obrigado Eduardo pela achega), mas como o sítio onde Clara vivia e onde fora assassinada.

Gostaste do estilo? Isso é um grande elogio, é difícil criar um estilo, e que agrade!

Obrigado pela assiduidade e, sobretudo, pelas críticas.

Leonor Martins disse...

Eduardo

hmmmm...quer então dizer que o nosso Pedro, deixou de estar no apartamento a partir do momento em que Clara foi assassinada...regressando para ir buscar alguns objectos que queria levar para si (e se queria para si...era porque não eram seus).

Quanto à questão da posse e referência, gostava de ouvir o Astuto...pois é uma referência constante nos capitulos que redige (vidé 3º parágrafo do Cap. IX).

A atenção que vos dedico, é apenas a forma de vos desafiar...

Quanto à perguntas que este Capitulo levanta...tenho dificuldade em considera-las importantes para o desenrolar da história...acho que somente com a introdução das outras personagens pode este fim ser adiado...é que pessoalmente acho que está a ser um pouco "arrastado"...

Até breve...

astuto disse...

Touro, ainda bem que gostaste. Estamos em sintonia.

Pensei exactamente nessas questões que estão por responder. É por aí...
Se repararam, César desceu ao café e não se encontrou com Marta... Não se esqueçam que Marta gostava de ouvi-lo na rádio (também a Clara), o conto começou por aí... Como será o impacto do encontro?

Cumprimentos.

Eduardo Ramos disse...

Leonor ( ... pela verdura, vai formosa e... segura. ) Acho que Pedro já vivia na Ericeira à algum tempo. Ele estava em divórcio litigioso com Clara e devia estar separado dela. Penso que é o que se deduz do capítulos anteriores.

astuto disse...

Eduardo,
eu não explicaria melhor. Claro que para a história não interressa quem está a pagar o empréstimo ao banco, quem tem a assinatura na escritura do apartamento. Eu não tenho a posse legal de uma casa mas digo "a minha casa"... o local onde vivo. E, normalmente, quando um casal se zanga, o homem, mesmo com a posse legal do imóvel, é normalmente quem abandona... Normalmente...

O sangue? Pois, e aposto que o lavatório e torneira também terão, ainda, os seus vestígios de sangue...

Cumprimentos.

Leonor Martins disse...

Saliento que a problemática da posse não foi introduzida pelo meu comentário...o que pretendia era apenas perceber se o Pedro e Clara partilhavam o mesmo espaço, e simultaneamente evidenciar a diferença de perspectiva por parte do Astuto.

Da resposta do Eduardo, lá vou eu 1 x + rever o conto, para ver se o que depreende também é por mim percepcionado.

Quanto às outras personagens...ninguém arrisca fazer comentários?

Laudinha disse...

Toca-me a mim o seguinte.... posso dizer que o Mesquita estará presente... qto ao encontro César-Marta ainda não sei se vou proporcioná-lo na totalidade (if you know what i mean)

Jaleco disse...

Leonor, se voltares a reler o conto já o vais saber melhor q eu :p!! Carissímos co-contadores...temos q nos por a pau c/ esta jovem :D!!

Belissimo capítulo Astuto!!!

astuto disse...

Dá-lhe com força, Laudinha!

Obrigado, Jaleco!

Cumprimentos.

PS: Sabem onde vai ser a próxima aparição da Senhora de Fátima? Não percam a entrevista!

http://homemmau.blogspot.com/2007/06/grande-entrevista-senhora-de-ftima.html#links

Pratas disse...

Grande astuto!

Gostei muito do teu capítulo.

Estava a ver que nunca mais havia uma cena de porrada! :)

E a Clara? Será que era flor que se cheire? Será que a culpa era dela? Seria Clara uma traidora compulsiva? :) Ela também beijou César :)

Parabéns, e força Laudinha!

cigano azul disse...

não vou comentar porque o nível de comentários está demasiado elevado para mim...

Joana disse...

Escreves que te fartas! :)

Gostei das expressões, das sensações e, sobretudo, de ficar à espera de cada palavra seguinte!

Parabéns!

ah, tb gosto da música :)

beijinhos e não pares de escrever

Parabéns também a todos aqui aqui escrevem. A ideia é muito boa **

astuto disse...

Pratas,
obrigado pelos elogios; fico contente que tenhas gostado.

Cigano,
qual nível? Desabafa para a frente! Volta sempre.

Joana,
claro que vou continuar a "rabiscar", e tu continua a passar por aqui... A música é excelente, o "momemto" encaixa nos "momentos" referidos no capítulo e soa bem, é suave e poético, bom para ouvir enquanto se lê...
Obrigado!

Cumprimentos a todos e voltem sempre!

Miguel Ferreira disse...

Gostei... Está simples e directo! Apesar de não adiantar muito na história os meus Parabéns gosto do teu estilo de escrita... :)

Cristina disse...

Acho que, em relação aos 4-5 últimos capítulos, é o mais bem conseguido. Deixa-nos novamente no suspense com algumas perguntas sem resposta. E, finalmente, duas pessoas enfrentam-se para verem esclarecida uma situação.

Capitulo bem escrito e bastante descritivo. Muito bom!

Parabéns, autor.

astuto disse...

Miguel Ferreira e Cristina, obrigado pelos elogios e pela força!

As respostas aos enigmas não foram reveladas propositadamente, para dar mais suspense...

Cumprimentos e pbrigado pelas visitas.

tonsdeazul disse...

Cá estou eu novamente.
Este capítulo não acrescenta muito, mas no entanto está bem escrito. Parabéns Astuto pela escolha das palavras.