"Senhor César Campos certo?"
"Sim. Que susto me pregou senhor agente" diz César tentando disfarçar.
"Não tenha medo que eu não mordo. Olhe, pode ir embora para casa. O inspector Mesquita ligou-me e pediu-me que o mandasse embora, infelizmente aconteceu um imprevisto e ele não consegue voltar a tempo. Entrará em contacto consigo em breve."
"OK, ahh.. OK, ficarei à espera." responde a gaguejar.
"A recepção está informada, por isso basta apenas identificar-se à saída."
"Muitíssimo obrigado senhor agente, tenha uma boa noite." O agente não responde e permanece imóvel.
“Sim senhor,” diz ela sem tirar os olhos de cima dele nem para pestanejar. “existe um café mesmo do outro lado da rua.”
“Obrigado... Então tenha uma boa noite senhora.” responde ele virando costas depois de ser atingido por um arrepio na espinha.
“De nada. Tenha também uma boa noite senhor César.”
César vira-se para trás, “Senhor César? Desculpe, eu conheço-a?”.
"Não me parece. Mas eu conheço-o a si. O senhor é o César da rádio, reconheci-o logo pela voz. Adoro ouvi-lo de manhã logo depois de acordar. É ainda mais bonito do que o imaginava."
“Bonito eu?.. Ora essa…” diz César não conseguindo disfarçar um pequeno sorriso. A velhota aproxima-se agora um pouco mais dele.
“Diga-me César, porque é que está triste?”
César hesita. A voz rouca da velhota é estranha e penetrante. “Triste. Eu não estou triste…”
“Não se preocupe César. Não precisa de estar triste, eu sei que tudo se vai resolver. E o César também sabe. Tudo sempre se resolve.” diz acenando a cabeça. “Sabe, o destino reserva sempre as melhores coisas ás melhores pessoas, e o César é uma dessas pessoas. Consigo ver isso nos seus lindos olhos.”
“Desculpe mas não sei se estou a perceber...”
“Já o meu avô costumava dizer. Nesta busca incessante pelo mundo, às vezes deixamos escapar aquilo que se encontra mesmo debaixo dos nossos olhos. Lembre-se disto César, lembre-se disto. Tenha uma boa noite.” diz ela abandonando o local e desaparecendo no escuro no fundo do corredor.
Era noite quando pisou o chão da rua já fora da Judiciária. Entra no banco de trás de um táxi que se encontrava parado mesmo à porta e diz a morada de sua casa ao taxista.
"Despache-se por favor!" exclamou.
“Mas o que é que tu me querias dizer Clara?..” diz como que falando para os seus botões.
Incrível como depois de tanto tempo, a mala ainda libertava um suave odor a maçã. "Clara..." Espalhado pela cama está agora um rímel, um pacote de lenços de papel brancos, uma caixa de óculos, um porta-chaves supostamente com as chaves do apartamento dela, uma embalagem de pílulas, um bloco de notas Moleskine preto e duas caixas de Xanax.“Porra.. duas caixas de Xanax?”
“Olá Diogo.” diz ele. “Aposto que este bloco tem mais qualquer coisa.” e coloca-o no bolso do casaco levando-o consigo. O porta-chaves tem o mesmo destino que o Moleskine, o bolso do casaco, enquanto os restantes pertences de Clara são atirados novamente para dentro da mala.
A sua expressão facial vincada de raiva assemelha-se agora a um animal raivoso, pronto a atacar. Os instintos estavam agora a apoderar-se dele. Aproxima-se do espelho e foca-se no seu olhar gritando para o espelho "Tu sabes quem eu sou? É? Sabes cabrão? Não sabes não... Tu não me conheces... Vou dar cabo de ti!" Um pontapé vigoroso acerta mesmo em cheio no espelho reduzindo-o a mil pedaços. No meio de tanta raiva, César usa todas as suas forças para gritar apenas uma coisa.“Odeio-te Pedro!!!” e sai porta fora levando a mala preta consigo.